Leituras.

Atualizado em: segunda-feira, 21 de maio de 2012 14:52

Para mim fazer ????

Kyara Incrocci(*)

Todos os dias, nós cometemos pequenos erros ao usarmos a língua portuguesa; porém, ao contrário do que a maioria pensa, eles são muito fáceis de serem resolvidos. Dentre todos os erros da língua portuguesa, talvez, o mais corriqueiro seja o uso inadequado do pronome “mim”. É realmente comum ouvirmos as pessoas usarem esse pronome de forma errada. 

Observe:

 

A-             “Professora, é para mim fazer qual exercício mesmo?”

B-             “É para mim marcar sua próxima consulta para quando?”

C-             “Minha mãe pediu para mim não chegar tarde hoje.”

 

Situações como essas fazem parte do nosso cotidiano: nas escolas, nos consultórios, nas lojas, nas ruas. Onde quer que estejamos sempre vamos nos deparar com tais situações. É como se já tivesse sido cristalizado na nossa linguagem e todos os falantes a adotassem como sendo o correto, já que grande parte usa o pronome dessa forma.

Observe agora as orações reescritas:

“Professora, é para eu fazer qual exercício mesmo?”

“É para eu marcar sua próxima consulta para quando?”

“Minha mãe pediu para eu não chegar tarde hoje.”

 Os pronomes oblíquos, dos quais o “mim” faz parte, não podem fazer o papel de sujeito, logo não podem anteceder verbos. Quem faz o papel de sujeito para os verbos são os pronomes do caso reto (eu, tu ele, nós, vós, eles), sendo assim fica fácil resolver a questão.

Perceba que, para evitar o erro, é necessário procurar o sujeito do verbo.

Na frase A, quem é o sujeito do verbo fazer? EU e não mim.

Quem é o sujeito do verbo marcar na frase B? Novamente EU.

E ocorre o mesmo na frase C, o sujeito de chegar : EU.

 Agora observe esta frase:

 Para mim, estudar por horas a fio é impossível.  

Nesse caso, o pronome foi usado de modo perfeito, o mim não é sujeito do verbo estudar, mas seu complemento. Portanto podemos até estruturar a frase de outra maneira:

Estudar por horas a fio é impossível para mim.

Regrinha prática:

Se houver verbo após o pronome, reavalie antes de usar o “mim”. Caso não haja, use-o!

·                 Essas flores são para eu dar de presente.  

·                 Essas flores são para mim.  

Abraço,

Até a próxima! 

(*)Kyara Incrocci é professora de Língua Portuguesa e Literatura.


Língua Portuguesa e os estrangeirismos. 

Kyara Incrocci(*)

Usamos palavras no nosso dia a dia sem nos darmos conta da sua origem e por que elas fazem parte do nosso léxico.

A língua é um elemento vivo, ou seja, está em constante transformação. Desde o século III a.C., a língua portuguesa - que é originária do latim oral - recebe influência de outros povos que incorporaram palavras novas ao nosso idioma e que se tornaram indeléveis, porque as usamos até hoje.  A Península Ibérica, que era habitada por bascos, iberos, gregos, cartagineses e fenícios foi invadida pelos celtas e outros povos, até serem expulsos pelos romanos, dessa forma a língua portuguesa recebeu de todas essas etnias muitas palavras, tais como: barro, baía, bezerro, cama, esquerdo, cerveja, camisa, gato, gordo, lança, bolso, cara, corda, caixa, calma, órfão etc. A contribuição grega é imensa no processo de formação das nossas palavras. Usamos vários radicais e prefixos helênicos: derma = pele, rino = nariz, zoo = animal, biblio = livro, algia = dor, arqueo = antigo, antropo = homem, auto = próprio, cromo = cor, crono = tempo, cefalo = cabeça, dromos = corrida, etno = raça, hidro = água, glota = língua, isso = igual, mito = fábula, micro = pequeno, odonto = dente, pan = tudo, meso = meio, foto = luz, fono = som, orama = vista, osteo = osso e muitos outros com os quais formamos palavras, principalmente nas áreas médicas.

               Mais tarde, os povos germânicos também invadiram a região e deram sua contribuição ao nosso idioma: arreio, agasalho, banho, banco, brasa, fralda, ganso, roupa, sopa, grupo, liso, morno... Já no século VIII d.C. foi a vez dos árabes se fixarem na região - por aproximadamente setecentos anos - deixando ali enraizadas outras tantas palavras. O latim não perdeu sua força, mas, mais uma vez, recebemos vocábulos novos que até hoje utilizamos: arroz, azeite, algodão, alface, açafrão, tambor, aldeia, armazém, álcool, álgebra, xarope, alvará, azulejo, almofada, zero e outras tantas.

               Aqui no Brasil, depois da chegada dos portugueses, que aos poucos foram introduzindo a língua até se tornar oficial em 1758, ela não parou de receber influências de outros idiomas. A língua dos índios foi de grande importância já que havia no país cerca de 1200 povos indígenas que falavam aproximadamente mil línguas diferentes. A princípio foi necessária a criação de uma língua franca baseada no tupi e denominada de língua geral paulista, que durou pouco mais de duzentos anos e com a qual os portugueses catequizaram os índios e a utilizaram nas expedições dos bandeirantes. 

               Mais tarde um pouco, chegaram os africanos trazidos de diversas partes para trabalhar (escravizados, uma vez que os índios resistiam bravamente a mais um tipo de insubordinação), e nos trouxeram palavras como: oxalá, bagunça, cachimbo, moleque, angu, bobó...

               A chegada dos imigrantes na segunda metade do século XIX trouxe, não só a contribuição das palavras, mas também sua tão maravilhosa cultura, costumes, crenças, culinária. Claro que os africanos também trouxeram e é importante ressaltar que não foi só com palavras que fomos agraciados por todos eles. Nesse período, a influência que a cultura francesa exercia sobre nossos intelectuais fez com que seu vocabulário fosse facilmente aceito e a exemplo disso usamos até hoje palavras como: abajur, batom, matinê, bege, avenida, balé, buquê, clichê, cachecol, conhaque, filé, gripe, garçom, groselha, maiô, madame, maionese, purê, patê, toalete, maçom, marrom, tricô, omelete, paletó etc.

               Chegando ao século XX, fomos praticamente bombardeados com palavras de origem inglesa, uma vez que os Estados Unidos se firmavam como grande potência mundial.

               E, agora, é a vez das palavras oriundas da invasão tecnológica, que nasceram – principalmente – com a internet, e fazem parte do nosso cotidiano – muitas delas já reconhecidas em nosso vocabulário e grafadas no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) assim temos: deletar, e-mail, site entre outras.

               Assim é a língua portuguesa que, desde seu nascimento até hoje, incorpora em seu léxico outros sons e formas que gentilmente abraçamos. Sendo assim, que venham mais e mais vocábulos novos de uma forma saudável a ponto de não valorizarmos mais o que é estrangeiro do que o nosso lindo idioma. Dizem que somos o povo mais hospitaleiro do mundo, e com a nossa língua não poderia ser diferente.

               Vida longa à receptiva quinta e última filha do latim, eternizada nos versos de Olavo Bilac:

 Língua portuguesa

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Esse poema merece uma análise, pois trata da beleza da nossa língua e dos maus tratos que ela recebe, mas isso é assunto para outro texto! 

(*)Kyara Incrocci é professora de Língua Portuguesa e Literatura.


 

Bullying: Um xinga, o outro chora e o resto cai na risada.

 

Na internet e no celular, mensagens com imagens e comentários depreciativos se alastram rapidamente e tornam o bullying ainda mais perverso. Como o espaço virtual é ilimitado, o poder de agressão se amplia e a vítima se sente acuada mesmo fora da escola. E o que é pior: muitas vezes, ela não sabe de quem se defender.

Fonte: Revista Nova Escola

http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/cyberbullying-violencia-virtual-bullying-agressao-humilhacao-567858.shtml?page=1

Vítima
Costuma ser tímida ou pouco sociável e foge do padrão do restante da turma pela aparência física (raça, altura, peso), pelo comportamento (melhor desempenho na escola) ou ainda pela religião. Geralmente, é insegura e, quando agredida, fica retraída e sofre, o que a torna um alvo ainda mais fácil. Segundo pesquisa da ONG Plan, a maior parte das vítimas - 69% delas - tem entre 12 e 14 anos. Ana Beatriz Barbosa Silva, médica e autora do livro Bullying: Mentes Perigosas na Escola, cita algumas das doenças identificadas como o resultado desses relacionamentos conflituosos (e que também aparecem devido a tendências pessoais), como angústia, ataques de ansiedade, transtorno do pânico, depressão, anorexia e bulimia, além de fobia escolar e problemas de socialização. A situação pode, inclusive, levar ao suicídio. Adolescentes que foram agredidos correm o risco de se tornar adultos ansiosos, depressivos ou violentos, reproduzindo em seus relacionamentos sociais aqueles vividos no ambiente escolar. Alguns também se sentem incapazes de se livrar do cyberbullying. Por serem calados ou sensíveis, têm medo de se manifestar ou não encontram força suficiente para isso. Outros até concordam com a agressão, de acordo com Luciene Tognetta. O discurso deles vai no seguinte sentido: "Se sou gorda, por que vou dizer o contrário?" Aqueles que conseguem reagir alternam momentos de ansiedade e agressividade. Para mostrar que não é covarde ou quando percebe que seus agressores ficaram impunes, a vítima pode escolher outras pessoas mais indefesas e passam a provocá-las, tornando-se alvo e agressor ao mesmo tempo.

Agressor
Atinge o colega com repetidas humilhações ou depreciações porque quer ser mais popular, se sentir poderoso e obter uma boa imagem de si mesmo. É uma pessoa que não aprendeu a transformar sua raiva em diálogo e para quem o sofrimento do outro não é motivo para ele deixar de agir. Pelo contrário, se sente satisfeito com a reação do agredido, supondo ou antecipando quão dolorosa será aquela crueldade vivida pela vítima. O anonimato possibilitado pelo cyberbullying favorece a sua ação. Usa o computador sem ser submetido a julgamento por não estar exposto aos demais. Normalmente, mantém esse comportamento por longos períodos e, muitas vezes, quando adulto, continua depreciando outros para chamar a atenção. "O agressor, assim como a vítima, tem dificuldade de sair de seu papel e retomar valores esquecidos ou formar novos", explica Luciene. 

Espectador
Nem sempre reconhecido como personagem atuante em uma agressão, é fundamental para a continuidade do conflito. O espectador típico é uma testemunha dos fatos: não sai em defesa da vítima nem se junta aos agressores. Quando recebe uma mensagem, não repassa. Essa atitude passiva ocorre por medo de também ser alvo de ataques ou por falta de iniciativa para tomar partido. "O espectador pode ter senso de justiça, mas não indignação suficiente para assumir uma posição clara", diz Luciene. Também considerados espectadores, há os que atuam como uma plateia ativa ou uma torcida, reforçando a agressão, rindo ou dizendo palavras de incentivo. Eles retransmitem imagens ou fofocas, tornando-se coautores ou corresponsáveis.

Aprender a lidar com a própria imagem é o primeiro passo.

 

Luciene Tognetta, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que por volta dos 10 ou 12 anos a criança passa a buscar, no convívio social, referências diferentes das que sempre recebeu em casa, dando continuidade ao processo de construção de sua personalidade. "Essa é a época de aprender a lidar com a própria imagem. Se essa criança se conhece e gosta de como é, consegue manifestar sentimentos e pensamentos de maneira equilibrada. Do contrário, pode sentir prazer em menosprezar o outro para se afirmar."

Logo em seguida, juntamente com a entrada na adolescência, vem a necessidade de pertencer a um grupo. Nesse momento, basta sair um pouco do padrão (alto, baixo, gordo, magro) para ser provocado. Foi o que aconteceu com Aline, 14 anos. Ela recebia mensagens de uma colega falando que estava gorda. A agressora, que a ameaçava e a proibia de contar sobre essas conversas, mandava também dietas e dizia que, caso não perdesse peso, iria apanhar. A professora das duas lembra: "Ela fez de tudo para agradar à colega e seguiu as indicações porque sentia medo. A escola e os pais só desconfiaram que havia algo de errado porque perceberam uma mudança repentina no comportamento da vítima".

Algumas escolas já estão cientes de que é preciso um acompanhamento permanente para afastar as agressões do cotidiano. A EM Fernando Tude de Souza, no Rio de Janeiro, por exemplo, atacou o problema com atividades que buscam garantir o bom relacionamento entre os estudantes. "Reuniões conjuntas com pais e alunos e um olhar atento ao comportamento dos jovens dentro e fora de sala de aula precisam entrar no planejamento", afirma a coordenadora pedagógica Tânia Maselli Saldanha Leite (leia no quadro abaixo as principais ações que toda escola pode adotar, tanto para prevenir o problema como para combatê-lo, quando o caso já se tornou público).

Prevenção e solução nas mãos da escola

De acordo com os especialistas, a escola precisa encarar com seriedade as agressões entre os alunos. O cyberbullying não pode ser visto como uma brincadeira de criança. A busca pela solução ou pela prevenção inclui reunir todos - equipe pedagógica, pais e alunos que estão ou não envolvidos diretamente - e garantir que tomem consciência de que existe um problema e não se pode ficar omisso. Veja, a seguir, ações ao alcance das escolas.

- Como prevenir
Ensinar a olhar para o outro Criar relacionamentos saudáveis, em que os colegas tolerem as diferenças e tenham senso de proteção coletiva e lealdade. É preciso desenvolver no grupo a capacidade de se preocupar com o outro, construindo uma imagem positiva de si e de quem está no entorno.

Deixar a turma falar Num ambiente equilibrado, o professor forma vínculos estreitos com os estudantes, que mostram o que os deixa descontentes e são, de fato, reconhecidos quando estão sofrendo - o que é diferente de achar que não há motivo para se chatear.

Dar o exemplo Se a equipe da escola age com violência e autoritarismo, os jovens aprendem que gritos e indiferença são formas normais de enfrentar insatisfações. Os professores sempre são modelo (para o bem e para o mal). 

Mostrar os limites É essencial estabelecer normas e justificar por que devem ser seguidas. Às vezes, por medo de ser rígidos demais, os educadores deixam os adolescentes soltos. Mas eles nem sempre sabem o que é melhor fazer e precisam de um norte.

Alertar para os riscos da tecnologia O aluno deve estar ciente da necessidade de limitar a divulgação de dados pessoais nos sites de relacionamento, o tempo de uso do computador e os conteúdos acessados. Quanto menos exposição da intimidade e menor o número de relações virtuais, mais seguro ele estará.

Ficar atento Com um trabalho de conscientização constante, os casos se resolvem antes de estourar. Reuniões com pais e encontros com grupos de alunos ajudam a evitar que o problema se instale.

- Como resolver
Reconhecer os sinais Identificar as mudanças no comportamento dos alunos ajuda a identificar casos de cyberbullying. É comum as vítimas se queixarem de dores e de falta de vontade de ir à escola.

Fazer um diagnóstico Uma boa saída é realizar uma sondagem, aplicando questionários para verificar como os alunos se relacionam - sem que sejam identificados. As informações servem de base para discussões sobre como melhorar o quadro. Quando os alunos leem, compartilham histórias e refletem sobre elas, ficam mais comprometidos.

Falar com os envolvidos Identificados os indícios, é hora de conversar com a vítima e o agressor em particular - para que não sejam expostos. A escola não pode legitimar a atuação do agressor nem puni-lo com sanções não relacionadas ao mal que causou, como proibi-lo de frequentar o intervalo. Se xingou um colega nos sites de relacionamento, precisa retirar o que disse no mesmo meio para que a retratação seja pública. A vítima precisa estar fortalecida e segura de que não será mais prejudicada. Ao mesmo tempo, o foco deve se voltar para a recuperação de valores essenciais, como o respeito.

Encaminhar os casos a outras instâncias Nas situações mais extremas, é possível levar o problema a delegacias especializadas em crimes digitais. Para que os e-mails com ameaças possam ser tomados como prova, eles devem ser impressos, mas é essencial que também sejam guardados no computador para que a origem das mensagens seja rastreada. Nos sites de relacionamento, existe uma opção de denúncia de conteúdos impróprios em suas páginas e, em certos casos, o conteúdo agressivo é tirado do ar.

 

Mesmo quando a agressão é virtual, o estrago é real.

O cyberbullying é um problema crescente justamente porque os jovens usam cada vez mais a tecnologia - até para conceder entrevistas, como fez Ana, 13 anos, que contou sua história para esta reportagem via MSN (programa de troca de mensagens instantâneas). Ela já era perseguida na escola - e passou a ser acuada, prisioneira de seus agressores via internet. Hoje, vive com medo e deixou de adicionar "amigos" em seu perfil no Orkut. Além disso, restringiu o aceso ao MSN. Mesmo assim, o tormento continua. As meninas de sua sala enviam mensagens depreciativas, com apelidos maldosos e recados humilhantes, para amigos comuns. Os qualificativos mais leves são "nojenta, nerd e lésbica". Outros textos dizem: "Você deveria parar de falar com aquela piranha" e "A emo já mudou sua cabeça, hein? Vá pro inferno". Ana, é claro, fica arrasada. "Uso preto, ouço rock e pinto o cabelo. Curto coisas diferentes e falo de outros assuntos. Por isso, não me aceitam." A escola e a família da garota têm se reunido com alunos e pais para tentar resolver a situação - por enquanto, sem sucesso.

Pesquisa da Fundação Telefônica no estado de São Paulo em 2008 apontou que 68% dos adolescentes ficam online pelo menos uma hora por dia durante a semana. Outro levantamento, feito pela ComScore este ano, revela que os jovens com mais de 15 anos acessam os blogs e as redes sociais 46,7 vezes ao mês (a média mundial é de 27 vezes por semana). Marcelo Coutinho, especialista no tema e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que esses estudantes não percebem as armadilhas dos relacionamentos digitais. "Para eles, é tudo real, como se fosse do jeito tradicional, tanto para fazer amigos como para comprar, aprender ou combinar um passeio."

No cinema, essa overdose de tecnologia foi retratada em As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. A fita conta a história de dois irmãos que passam por mudanças no relacionamento com os pais e os colegas. Boa parte da trama ocorre num colégio particular em que os dois adolescentes estudam. O cyberbullying é mostrado de duas formas: uma das personagens mantém um blog com fofocas e há ainda a troca de mensagens comprometedoras pelo celular. A foto de uma aluna numa pose sensual começa a circular sem sua autorização.

Na vida real, Antonio, 12 anos, também foi vítima de agressões pelo celular. Há dois meses, ele recebe mensagens de meninas, como "Ou você fica comigo ou espalho pra todo mundo que você gosta de homem". Os amigos o pressionam para ceder ao assédio e, como diz a coordenadora pedagógica, além de lidar com as provocações das meninas, ele tem de se justificar com os outros garotos.

Online, o agressor pode agir sem que precise se identificar.

A terceira principal marca do cyberbullying é a possibilidade de o agressor agir na sombra. Ele pode criar um perfil falso no Orkut ou uma conta fictícia de e-mail (ou ainda roubar a senha de outra pessoa) para mandar seus recados maldosos e desaforados. Paulo, 19 anos, teve sua foto publicada sem autorização na internet durante três anos (a imagem era uma montagem com seu rosto, uma boca enorme e uma gozação com um movimento que fazia com a língua). Ele nunca conseguiu descobrir quem eram seus algozes. "Eu não confiava mais em nenhum dos meus colegas", lembra. Seu desempenho escolar caiu e ele foi reprovado. Pediu transferência, mas, mesmo longe dos agressores, ainda sente os efeitos da situação. Toma medicamentos e tem o acompanhamento de um psicólogo. Tudo indica que os que o atazanavam na sala de aula estavam por trás do perfil falso.

E essa situação é totalmente nova na comparação com o bullying tradicional. Para agredir de forma virtual, não é necessário ser o mais forte, pertencer a um grupo ou ter coragem de se manifestar em público, no pátio da escola ou na classe. Basta ter acesso a um celular ou à internet. Por isso, muitos desses novos agressores nem sabem dizer por que fazem o que fazem. Na pesquisa da ONG, metade deles respondeu a essa pergunta com frases como "foi por brincadeira", "não sei" e "as vítimas mereciam o castigo". Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia da Informática, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que, "no bullying cara a cara, o agressor vê que a humilhação faz efeito porque a vítima sofre em público. Agora, basta imaginar esse sofrimento para o jovem se sentir realizado com a provocação virtual". Num ambiente em que essa dinâmica se instala, está claro que as relações não estão construídas com base em valores sólidos. Por isso, trabalhar para que o cyberbullying deixe de fazer parte da rotina é uma tarefa de toda a equipe escolar.

 

Beatriz Santomauro (bsantomauro@abril.com.br)

Fonte: Revista Nova Escola

http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/cyberbullying-violencia-virtual-bullying-agressao-humilhacao-567858.shtml?page=1

 


Assim não dá !

 

Incentivar as crianças a revidar agressões.

Fonte: Revista Nova Escola

 

A razão que leva uma criança a  agredir outra, verbal ou fisicamente, não é maldade pura, e sim a incapacidade de resolver a questão de outra forma. O mesmo se dá com o revide. Ao instruir que responda a um tapa, uma mordida ou um xingamento na mesma moeda, o educador ajuda a conservar a justiça retributiva, comum entre 3 e 7 anos e em sujeitos que mesmo adultos são incapazes de eleger outras alternativas. Diferentemente da construção da autonomia, é firmado o conceito de heteronomia: a pessoa só obedece as regras quando lhe convém e se existe alguém que supervisiona. O correto é guiar os pequenos para que encontrem soluções civilizadas, que envolvam diálogo, porque não se bate em ninguém, ainda que se tenha apanhado. “Por que você deixou que seu colega batesse em você?” é uma boa pergunta a ser feita, pois ajuda a despertar em quem sofreu a agressão um sentimento precursor da justiça — a indignação — que vai auxiliar na busca de uma solução correta e na conquista da autonomia. A criança não deve ficar livre para fazer o que quiser. É papel do  professor ajudá-la a pensar nas possibilidades, antecipar os resultados de suas ações e compreender o valor de regras de convivência. A tolerância é necessária para que todos convivam em harmonia e a escola, que insere a criança no mundo público, tem de tê-la como um ideal.

 

Consultoria Luciene Tognetta, pesquisadora do Laboratório de Psicologia Genética da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.

Reportagem de Beatriz Levischi

  


Educação infantil

 

É correto afirmar que irmãos gêmeos não devem estudar na mesma sala?

Fonte: Revista Nova Escola 

 

Sim. O ideal é que eles freqüentem espaços diferentes porque a escola é um lugar de construção de relacionamentos, onde ocorrem a formação do sujeito e o exercício de valores. É o local em que o ser humano aprende a lidar com sucessos e frustrações e conviver em grupo. Com tantos aspectos importantes e substancialmente individuais, fica difícil construir uma identidade própria com alguém do mesmo núcleo familiar e muito parecido fisicamente: as comparações entre um e outro serão constantes. A constituição como um ser único e pleno somente vai ocorrer de forma particular se os gêmeos estiverem em turmas diferentes. As experiências de cada um deles serão realmente exclusivas, principalmente na infância, etapa da vida recheada de sentimentos e lembranças.

Consultoria Liamara Salamani, coordenadora pedagógica da Educação Infantil do Colégio Santo Américo, em São Paulo.

 


Nossos professores não aprenderam a ensinar e, como conseqüência, nossos alunos não aprendem o que deveriam aprender"
 
Por Cláudio de Moura Castro
21/10/2009
 

Fonte: Revista Veja - Editora Abril - edição 2083 - ano 41- n.º 42/ 22 de outubro de 2008


 
Ato I. Oitocentos professores no auditório. Peço que levantem a mão aqueles que aprenderam a ensinar "regra de três" na faculdade de educação. Surpresa! Nem uma só mão levantada. Ou seja, não aprenderam como ensinar a mais útil das ferramentas matemáticas.  
 Ato II. Três mil professores no auditório. Falo com eles sobre a importância de receberem material didático bem detalhado, de forma a melhorar suas aulas e facilitar sua vida. Sou aplaudido de pé. Choram de decepção, ou de raiva, os fundamentalistas antilivros presentes ao evento. Para eles, o professor precisa inventar sua aula em vez de usar o bom material existente.
  Ato III. Eu em conversa com algumas professoras. Como elas não aprenderam na faculdade a dar aula, admitem que seus alunos servem de cobaias, enquanto elas aprendem – processo que pode durar até cinco anos. É como se num curso de cirurgia os alunos estudassem apenas a psicogênese do ato cirúrgico. Ao se formarem, teriam de inventar maneiras de operar seus pacientes, já que não as haviam aprendido no curso. Pouco a pouco, aumentaria o número de sobreviventes entre seus pacientes.  
 Os exemplos acima não têm foros de evidência científica. Contudo, refletem a direção tomada pelos cursos que formam nossos professores. Alguns diretores de escolas públicas falam com nostalgia do velho curso Normal, no qual se aprendia a dar aula. Foi substituído por faculdades de Educação, para formar orientadores nas escolas, e pelos Institutos Normais Superiores, para formar os professores de sala de aula. Mas essas últimas instituições não eram do agrado dos gurus da nossa pedagogia.
  Usando seus potentes decibéis, conseguiram o seu bloqueio pelo MEC.  
 O resultado é trágico. Hoje são formados nas faculdades de Educação não apenas os orientadores, mas a esmagadora maioria dos que vão ser professores de sala de aula. Nessas faculdades eles ouvem falar dos livros de muitos autores, vivos e defuntos, nenhum dos quais ensina a dar aula. Em compensação, estudam as mais exaltadas teorias, tais como a luta de classes, a exploração do homem pelo homem, o imperialismo cultural, os intelectuais orgânicos e a psicogênese do conhecimento. É como se a inclusão de algum fragmento de sapiência fosse condicionada a não ter nenhuma aplicabilidade na sala de aula. Piaget não ensina a alfabetizar. Portanto, isso não se aprende nessas faculdades. Resultado: os professores se sentem perdidos diante dos seus alunos.  
 O educador chileno Ernesto Schiefelbein diz que um médico pode abrir um livro de cirurgia e ficar sabendo dos procedimentos aconselhados para uma apendectomia. Um educador deveria ter também um livro que pudesse consultar quando quisesse saber como ensinar a regra de três. Só que há resistência a livros tão específicos. Para nossos gurus, é errado explicitar como se ensinam tais detalhes, embora haja ampla pesquisa mostrando que isso dá bons resultados.  
 Entalado na controvérsia está o construtivismo, uma formulação teórica acerca da epistemologia do aprendizado. Aceitemos ou não as suas formulações, elas nada dizem sobre como os livros devem ser nem como usá-los. A subsecretária de Educação da cidade de Nova York é construtivista ferrenha e confessa. E insiste nos materiais escritos que especificam, nos mínimos detalhes, como conduzir a sala de aula. No Brasil, dizem-se construtivistas os gurus furiosos contra livros detalhados. Ou seja, o uso do livro nada tem a ver com o construtivismo. Mas tem muito a ver com o bom aprendizado. A receita é simples, precisamos de livros detalhados, em mãos de professores que aprenderam a usá-los e a dar aula. Assim se faz no mundo inteiro.  
 O resultado de não preparar professores para dar aula e fazer campanha contra livros é que nem a metade dos alunos da 4ª série é funcionalmente alfabetizada (todos deveriam saber ler ao final da 1ª série). O Pisa (uma prova internacional de aproveitamento escolar) nos mostrou que 23% dos nossos alunos nem sequer atingem o nível 1, o mais baixo. No total, 86% estão abaixo do mínimo esperado. A lógica é inapelável: como os professores não aprenderam a ensinar, os alunos não aprendem o que deveriam aprender.
 
 Claudio de Moura Castro é economista

 


Educação, ontem e hoje
08/04/2009 10:42
Fonte: Comércio da Franca/Opinião
 

     Novelas e minisséries têm mostrado retratos fiéis dos anos dourados. Quem tem a oportunidade de acompanhar com atenção certamente se encanta com os usos e costumes daquela época áurea, um deles, o ensino ministrado por professores bem remunerados e, portanto, capazes de responder adequadamente ao que o Ministério da Educação deles exigia. Os anos dourados se entenderam por parte dos anos 50, a construção de Brasília em 1960 e década seqüente, onde se deu o apogeu do ensino no Brasil, especialmente nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em 1900, 65% da população brasileira não sabia ler e escrever ou fazer cálculos simples e a população analfabeta era de 2/3 dos brasileiros em 1933. Entre 1942 e 1946 as leis orgânicas da Educação Nacional definiam como objetivo do ensino secundário e normal "formar as elites condutoras do País". Por ensino profissional entendia-se formação adequada dos filhos dos operários, aos desvalidos da sorte e aos menos afortunados, aqueles que necessitavam ingressar precocemente na força de trabalho. Criou-se na sociedade a idéia de que o ensino secundário ou normal e o superior se destinassem aos detentores do saber, ou do poder econômico; o ensino profissional, para aqueles que executavam as tarefas manuais. O próprio texto legal promovia a separação entre os que "pensam" e os que "fazem", sendo a educação profissional preconceituosamente considerada como de segunda categoria. Nos anos 50, o pré-primário, chamado Jardim da Infância, era freqüentado pelos filhos de classe média e rica. O primário estava reservado aos que atingiam os 7 anos, mas a evasão ainda era muito grande. Os que concluíam, adquiriam vasta base de conhecimentos, o que lhes garantia condições de trabalho em repartições públicas se não tivessem condições financeiras para seguirem estudos. Para cursar o ginasial, o aluno advindo do primário era obrigado a prestar o Exame de Admissão dado o pouco número de vagas nas escolas públicas, consideradas ilhas de excelência para onde todos desejavam ir. Cursos para o Exame prosperaram, ensinando Matemática, História do Brasil, História geral e Geografia. No primeiro ano do ginásio o estudante estaria às voltas com Latim, Inglês e Francês, Matemática, Desenho, História do Brasil, Português, Geografia, Artes manuais e Canto Orfeônico. Dez matérias, destacando-se o estudo do Latim e Português e o Canto Orfeônico no qual o aluno, com a prática do solfejo, adquiria noções de música. A cada nova série ou ano novas matérias eram incluídas em substituição de outras, até a conclusão. Havendo condições financeiras ou de tempo, não fosse o estudante obrigado a se dedicar ao trabalho, faria o colegial, em suas vertentes Científico (ciências exatas) ou o Clássico (ciências humanas). Naquele tempo, o aluno era avaliado mediante notas a que fazia jus, somadas e divididas ao final do ano para o atingimento de média mínima (7,5), sem a qual seria reprovado ou ficaria em segunda época. Não havia a aprovação automática de hoje, que empurra o estudante à frente, sem cultura adequada mas gerando economia para o Estado.
SÉRGIO FALEIROS é professor.

 

© 2010       |   Todos os direitos reservados    |    Melhor quando visualizado com resolução de 800 x 600